Você já se pegou pensando que é normal precisar de várias xícaras de café para funcionar ou que o cansaço constante é apenas a preço da vida moderna? Na sociedade atual, dormir pouco e estar sempre disponível tornou-se, erroneamente, um símbolo de produtividade. No entanto, o nosso organismo paga uma conta alta por essa normalização do cansaço.


 O cérebro não desliga à noite

Dormir não é simplesmente um ato passivo de "desligar" o corpo. Ao longo da noite, o cérebro passa por uma organização complexa de ciclos e estágios — a chamada arquitetura do sono . Estes ciclos ocorrem ao longo da noite e são importantes para a consolidação da memória, recuperação física entre outros aspectos.

  • Sono NREM: Inclui os estágios de sono profundo, cruciais para a recuperação física e regulação metabólica.

  • Sono REM: Período em que ocorrem o processamento emocional, a consolidação da memória e a aprendizagem.

Por essa razão, saber apenas a quantidade de horas que alguém passou na cama não é suficiente; o essencial é entender a qualidade e a continuidade desse sono.


 Os sinais diurnos de um sono ruim

A falta de descanso nem sempre se manifesta com os olhos pesados na cama. Muitas vezes, a queixa surge durante o dia através de sintomas cognitivos e emocionais:

  • Dificuldade de concentração e foco.

  • Lapsos de memória e dificuldade para aprender.

  • Irritabilidade e oscilações de humor.

  • Dor de cabeça ao acordar.

  • Queda de rendimento e erros frequentes no trabalho.

Além disso, é importante diferenciar fadiga de sonolência. A fadiga é a sensação contínua de falta de energia ou disposição. Já a sonolência é a tendência real e involuntária de adormecer em momentos do cotidiano, como durante reuniões, leitura ou ao dirigir.



 O impacto no metabolismo e no estresse

O sono inadequado não afeta apenas o cérebro; ele altera profundamente o funcionamento do corpo. A restrição ou fragmentação do sono pode desencadear:

  • Prejuízos metabólicos: Redução na sensibilidade à insulina e alterações no processamento da glicose.

  • Aumento do apetite: Alterações hormonais que regulam a fome e a saciedade, aumentando a busca por alimentos mais calóricos.

  • Desregulação do estresse: Alterações no cortisol e no ritmo circadiano.

Isso pode gerar um ciclo vicioso: o sono ruim prejudica o metabolismo, o que favorece o ganho de peso, aumentando o risco de apneia obstrutiva do sono, tornando a noite ainda mais fragmentada.


"Mas eu durmo oito horas por noite!"

Estar na cama por oito horas não garante um sono restaurador, como dito anteriormente o importante é como ocorre esse sono.

Problemas respiratórios como obstrução nasal, ronco e apneia do sono podem gerar microdespertares imperceptíveis ao longo da noite e fragmentar esse sono. 

A pessoa pode não se lembrar de ter acordado, mas o sono foi interrompido dezenas de vezes. É o equivalente a tentar estudar durante oito horas seguidas sendo interrompido a cada minuto: o tempo total parece adequado, mas o aprendizado e o descanso são comprometidos.

Outros fatores também afetam a noite, como a insônia, alterações no ritmo circadiano, síndrome das pernas inquietas, estresse e o consumo de álcool ou cafeína.


Ao avaliar o próprio descanso a pergunta chave não deve ser apenas "Quantas horas você dorme?", mas sim "Como você está dormindo?". Questionamentos simples ajudam a identificar o problema:

  • Você acorda verdadeiramente descansado?

  • Apresenta roncos, boca seca ou dores de cabeça ao acordar?

  • Sente necessidade de cochilar durante o dia?

O sono não deve ser visto como um mero intervalo entre duas tarefas cotidianas. O sono é a condição biológica primária que torna todas as outras atividades possíveis



Dra Marcela Pozzi Cardoso


Referências bibliográficas


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